O feitiço do tempo

Espero que o Cristiano Ronaldo ganhe, em Janeiro de 2016, a Bola de Ouro relativa a 2015. E desejo-o por dois motivos: ele merece ser recompensado pelo extraordinário profissionalismo e eu mereço que a televisão me faça sentir, nem que seja um dia por ano, como um personagem de um dos filmes da minha vida. Uma pessoa chega a casa ao fim da tarde, liga o aparelho em qualquer canal, e vê alguém a anunciar “Cristiano Ronaldo”. A partir daí, entra-se no conforto das grandes certezas. Sabemos que o futebolista vai baixar a cabeça e endireitar as calças, quase soletramos o discurso de agradecimento e, terminada a cerimónia, absorvemos via televisor toda a história do atleta, da infância pobre na Madeira até à vida de luxo em Madrid, passando por todas as etapas intermédias: a rua onde deu os primeiros toques, o início da carreira no Andorinha, o olheiro-mor Aurélio Pereira, o jogo contra o Manchester em Alvalade, a forma como o Real perdeu a cabeça e o amor ao dinheiro. É bom e agradável. O ser humano precisa destes momentos Bill Murray, não vá dar-se o caso de se esquecer de algum muito pormenorizado pormenor ou de confundir a sequência cronológica, imaginando uma infância milionária no Funchal e uma vida de privações na urbanização madrilena de La Finca.

É também por estes episódios que se vê a superioridade do futebol em relação a actividades menores como, por exemplo, a literatura. O facto de ser possível que Cristiano Ronaldo ganhe várias vezes seguidas a Bola de Ouro coloca-o num patamar muito superior àquele em que se encontra outro português talentoso, José Saramago, que só numa ocasião conseguiu deitar a mão ao prémio Nobel. E que bem me teria sabido ser recebido em casa uma vez por ano com um déjà vu televisivo relatando a vida do escritor, desde o nascimento na Azinhaga até à transferência para o Lanzarote, passando pelos primeiros toques nos livros dados em Lisboa, pelas entradas a pés juntos que fez a alguns companheiros de profissão no Diário de Notícias, e pela conturbada fase da sua carreira em que Sousa Lara o colocou a treinar à parte. 

Aníbal Éter