No início de 2012, liam-se opiniões histéricas comparando o fresquíssimo Girls (HBO) a esse velho epítome do avacalhanço feminino chamado Sex And The City (HBO); afinal, a cidade é a mesma, as mulheres são peças de série e as ideias repetem-se ciclicamente, como os crop tops. A diferença, dizia-se, estava na ausência de malas Fendi e tutus: procurava-se um retrato realista e atualizado do que é ser mulher em Nova Iorque, o que, como todos sabemos, representa o que é ser mulher em qualquer outra parte do mundo.
Felizmente, pouco tardou para que as ideias fossem devidamente arrumadas: algures na primeira temporada, vestida com uma blusa amarela cheia de flores, Hannah Horvath (Lena Dunham) deita-se de costas no chão alcatifado e diz «I’m twenty-four years old, don’t tell me what to do»;afinal, Girls era uma série sobre miúdas, não sobre mulheres. À revelação seguiram-se novas opiniões histéricas, e quem escrevia o desejo de uma geração influenciada por novas Samanthas (mesmo achando-se uma Carrie e sendo uma Miranda) apontou as maminhas da Lena Dunham como candidatas a símbolo.
Ora, ninguém elege nada a símbolo dos meus vintes sem o meu aval — especialmente maminhas. Foi para reclamar o direito a escolher as maminhas que me representavam que comecei a ver Girls, ainda a primeira temporada não terminara; e, quando terminou, Hannah sentou-se na areia a comer uma fatia de bolo e eu fiquei verdadeiramente comovida. Girls fez o que lhe pedi: espelhar os meus receios e preocupações numa novela divertida, com aquele toque americanizado, tão delicioso e irresistível. Além de me deitar no chão com frequência e reclamar que já não tenho idade para me dizerem o que fazer, também eu gosto de bolos.
Quando a novidade passou, o meu deslumbramento permaneceu; enquanto Hannah, Marnie (Allison Williams), Jessa (Jemina Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) desabrochavam para a realidade escondida atrás dos bancos de escola, eu acenava, e ria, e irritava-me com a estupidez ingénua das quatro, que não era senão a minha. Façam o seguinte exercício: experimentem ser uma jovem ocidental, estudar os privilégios e os desafios subjacentes à condição. Certamente repararão na confusão, no apelo das más decisões, numa descoberta muito pouco mágica e propícia à merda. Girls é uma série sobre miúdas que só fazem disparates, gajas egocêntricas e inconsequentes, incapazes de saber o que querem; e está tudo bem. É assim que deve ser, com o humor aguçado e deliciosamente despropositado de Dunham, e as suas maminhas sempre prontas para a festa.
Ah, as maminhas. Podem não ser as maminhas de uma geração — até porque o conceito de geração é algo estranho; as maminhas não são nada além de uma desculpa para críticas gratuitas. Tal como as maminhas, a série não define nada além de si própria. O meu gosto por ela vem de uma identificação subtil com cada uma das personagens, como se elas fossem caricaturas dos vários aspetos nos quais é difícil tornar-me uma mulher adulta. Os traços estão bem feitos, o esquema de cores foi bem escolhido. O resultado é um sorriso nos lábios. Para mim, vá. Mas não me contrariem. «I can’t be surrounded by your negativity while I’m trying to grow into a fully formed woman.»
Inês Costa