Podia fazer disto uma bonita série de posts, mas acho que me vou ficar pelo que se segue apenas. Chamar série falhada ao “Leftlovers”, é claro que é um tique snobe de quem consumiu com afinco as primeiras temporadas do Lost, todo o Wire, o Breaking Bad e ainda se comove com alguns epis dos inícios do Mad Men. Voltemos ao “Leftovers”, que confesso não fazer ideia se dá ou deu na TV portuguesa. Aquilo já acabou há uns mesitos nos EUA, entre mixed reviews, e com a promessa de uma nova temporada que, como pessoa que leu o livro do Tom Perrotta, deixa no ar alguma curiosidade.
Podia entrar naquele exercício de comparação entre o livro e a série, não vou. O argumento é escrito pelo Perrotta himself e ficou claro desde o início que o senhor quer fazer daquilo um objecto isolado do livro. Contam-se pequenos contos em cada episódio, inspirados livremente no romance. Os temas maiores, o luto, a perda, a solidão, o desapontamento, estão lá todos, mas com uma muito maior carga de absurdo. Curiosamente, fora o afastamento estético, se tivermos de apontar a grande diferença entre livro e tv, será a falta do humor no segundo. É aquela tendência da malta da tv de se levar demasiado a sério. Sobretudo a personagem do Kevin Garney (interpretada com esgares dolorosos pelo baixo ventre do Justin Theroux). No livro é um tipo mais descontraído e cínico que está um bocado perdido, na tv é um ser atormentado, um atlas da miséria e o non sense dos outros. Mas percebe-se. Coitado. A mulher e o filho deixaram-no para se juntar às piores seitas de todos os tempos (branco? cigarros? mudez? tipo estranho que tem sotaque inglês e que nunca se percebe porque é que é adorado?), a filha culpa-o por tudo e ainda por cima não arranja um raio de umas calças que não mostrem mais do que devem no seu running diário.
O Leftovers, além de um elenco muito bem amanhado, tem um tempo muito peculiar que não é muito comum na tv de hoje. Há ali espaço para ver os pormenores, as rachas na parede que tão bem servem de metáfora ao (excelente) último episódio. Também nos deixou a Carrie Coon e um dos melhores epis de tv do ano (é claro que é o que é centrado na Nora, a personagem de Carrie Coon, o 01#06). Agora (lá para o final do ano suponho) venha a segunda temporada. Com a certeza de que o existencialismo e uma data de outros ismos (incluindo o ‘eu botava uma carga de porrada tão grande naquela gente do cigarrismo’) não andam tão bem representados nos ecrãs por estes dias.
Tristany