Walk With Me

I don’t just watch TV all day long. I also listen.

Futurama

It’s alive! Ou não, é só um espasmo, acalmem lá as gónadas. Escrevi isto, publiquei-o noutro sítio, mas reparei que, ei!, era um texto sobre televisão. Não há por aí um tumblr sobre televisão? Ó MEU BENDER, CLARO QUE HÁ!


Apanhei uma vez um episódio de Futurama na RTP2. Foi há muito tempo, ainda eu sabia a música do genérico do Doreamon de cor — e em espanhol*. Parei ali o zapping por sentir o apelo do desenho animado: formas coloridas, vozes castiças; não é uma sensação estranha a quem cresceu com uma televisão em casa (ou três, no meu caso). Lembro-me do episódio: era aquele em que todos os elementos da Planet Express tinham um evil twin; e lembro-me também de não ter achado piada nenhuma àqueles bonecos. Anos mais tarde, numas férias de verão, calhou fixar o horário da reemissão de todas as temporadas na FOX. Na altura eram apenas cinco e de segunda a sexta, ao início da tarde, o canal transmitia três ou quatro episódios seguidos. As caixinhas que voltam atrás no tempo são uma invenção posterior a esse meu verão, por isso ver a série completa exigiu muita disciplina da minha parte — e disponibilidade. Sendo eu uma adolescente solitária, foi sem dificuldade que vi todos os episódios. Uma vez, depois outra, e mais outra. Depois, vi os filmes; assisti à sexta e sétima temporadas, aguardando ansiosamente por cada episódio; e rebelei-me contra o novo cancelamento da série. Desconfiava, com a amargura combativa dos fanáticos, que dessa vez não haveriam segundas oportunidades. Tinha razão. O último episódio confirma-o de forma inequívoca (e maravilhosa).

Já aguentei todo o tipo de esgares, comentários, até ameaças!, por dizer que Futurama é muito melhor que The Simpsons. Não há tabefe que me demova, os vossos argumentos são música de elevador. You can bite my shiny metal ass, que esta minha opinião não é discutível. Nem sequer é uma opinião: é uma verdade absoluta. Apoia-se na genialidade de episódios como o mítico Jurassic Bark (S05E02) — ninguém fala de Futurama sem mencionar este episódio — ou Godfellas (S04E08). Revi este último episódio esta tarde, por acaso, na FX, com uma caneca de Earl Grey a queimar-me a perna, e daí veio a necessidade de escrever este texto. Futurama é uma das minhas séries preferidas, e como os meus gostos deviam ser promovidos a escola de ideias, qualquer afirmação que a coloque acima das aventuras da família Simpson devia ser encarada com naturalidade. Da mesma forma,Godfellas é um dos meus episódios preferidos, logo Godfellas devia ser um dos episódios de eleição do público. Mas não é.

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 A única razão que encontro para a diferença de pontuação IMDBiana entre este episódio e outros como o comovente Jurassic Bark ou o hilariante Amazon Women in the Mood (S03E05) vem do tema que é abordado. Cães fossilizados ou fornicação/snu-snu são um must. Mas todos nós, europeus iluminados, estamos familiarizados com a postura estadunidense perante a religião. Um episódio onde Bender é ejetado da Planet Express e vagueia pelo espaço fazendo-se o Deus de uma colónia de micropigmeus; um episódio onde, mais tarde, após o apocalipse nuclear do pequeno universo sob o seu jugo, Bender efetivamente conhece Deus — e Deus é um computador?; e onde Fry, na busca do seu amigo, reduz a religião ao absurdo… Um episódio destes não será do agrado dos beatos, mas será certamente genial. É-o, de facto. Em Futurama, Groening teve a oportunidade de explorar o seu lado cromo, e aí descobriu as piadas mais inspiradas, as piadas com camadas, as piadas iluminadas. Pena que as subtilezas deste tipo de humor pareçam agradar apenas a um nicho.

* Bem, a verdade é que eu ainda consigo cantar a música do genérico espanhol do Doreamon. Vou fazer isso assim que acabar de escrever esta nota.


Inês Costa

“Música, eu nasci prá música”

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Quando me convidaram para este estabelecimento, disseram-me que a ideia era que falasse sobre aquilo que ia vendo na TV. Assim sendo, aqui fica o resumo do meu último mês televisivo:

Lanterna Mágica: imagens animadas que se movimentam delicadamente ao som de música suave

Estrela Cadente: imagens que se movem ao ritmo suavizante de acordes musicais

Primeiras Canções do Bebé: músicas infantis de todo o mundo cantadas suavemente por crianças

Concertino: músicas clássicas adaptadas para crianças, combinando com suavidade animação e orquestra

Doces Sonhos: objectos abstractos e imagens da natureza bailam sob o efeito suavizador da música

E agora despeço-me com suavidade

Aníbal Éter

On TV

“On TV, it looks so real.”

Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), “Nightcrawler”.

Lourenço Cordeiro

My God

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Estava mais ou menos a meio do terceiro volume da “Recherche” (tinha iniciado a releitura da obra na véspera e sou um leitor vagaroso) quando, ligeiramente cansado, resolvi ligar a television. Primeiro, dada a algazarra e a teatralidade que reinavam no ecrã, pensei tratar-se de um documentário científico sobre a Perturbação Histriónica da Personalidade, mas percebi depois que era apenas o programa “O Eixo do Mal”. Passados uns minutos, no meio da confusão e do movimento de braços, consegui ouvir a Clara Ferreira Alves dizer que o nosso Presidente Cavaco Silva é um saloio. Infelizmente, como tenho passado muito tempo mergulhado na english language (estou a reler todo o Martin Amis, à razão de dois títulos por dia), nem sempre compreendo à primeira o linguajar do povo. Peguei então num dos meus 38 dicionários de Português e consultei a respectiva entrada. A primeira definição que encontrei afirmava que um saloio pode ser um habitante dos arredores de Lisboa, a norte do Rio Tejo. Excluí-a imediatamente. Cavaco é de Boliqueime e, embora ande um pouco baralhado geograficamente (passei os últimos anos numa correria entre Paris, onde terá lugar o meu próxi… primeiro romance, e as fronteiras israelo-libanesa, sírio-turca e turco-iraquiana, onde recolhi os dados necessários para escrever uma série de reportagens a publicar em edições especiais da “New Yorker”), penso que o Algarve fica a sul do Tejo.
A definição que se seguia relacionava o saloio com o trabalho no campo, o que me deixou com algumas dúvidas pois é provável que o jovem Aníbal tenha dado à enxada em algum terreno da família. Mas isso foi há muitas décadas, antes de investir nos estudos e virar um white-collar worker. Clara Ferreira Alves, uma intelectual de esquerda, não estava de certeza a gozar com o passado de alguém que entretanto apanhou o tão elogiado “elevador social”. (e por falar em elevador, sabiam que li o último Houellebecq numa cabina de um hotel em New York, entre o lobby e o 20º piso? E que escrevi a crónica sobre o mesmo entre o 21º e o 38º, onde ficava o meu quarto? Às vezes até fico atónito com o meu cérebro tão espectacularmente culto! Mas voltemos ao nosso subject)  
Como da última vez que o vi não estava com o cabelo pintado de amarelo nem a gritar por cima das vozes dos outros, também não me parece que o Presidente de República encaixe na terceira definição presente no dicionário, segundo a qual um saloio é uma pessoa com falta de gosto e de educação. E foi assim, por exclusão de partes, que cheguei a uma surpreendente conclusão: a primeira-dama que se cuide, Clara Ferreira Alves acha o Cavaco Silva um pão.

Aníbal Éter  

De predador a presa

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Ao quarto episódio da terceira temporada de House of Cards há uma ideia que começa a sedimentar-se: as coisas aconteceram depressa demais. As coisas, isto é, a chegada de Frank Underwood à Casa Branca. Vemo-lo agora como presa, e é pena: como as duas primeiras temporadas mostraram, a Underwood fica melhor a pele de predador. Talvez Beau Willimon tenha ido com demasiada sede ao pote. Teria sido mais interessante ter passado mais tempo com Underwood ao ataque na sombra, em vez de à defesa no altar, pronto para o sacrifício. A sua imoralidade tinha no objectivo último de chegar à presidência uma obsessão que a justificava; não a absolvia, mas dava-lhe sentido. Agora, na Sala Oval, vemos Frank Underwood obrigado a fazer policy em vez de politics, e isso não acontece sem um certo sentimento de desconforto mútuo (dele e nosso). Pode ser que as coisas continuem a correr especialmente mal no resto da temporada ao ponto de devolver Underwood à sua condição natural de caçador do poder, mas nem a emergência eminente de novos carnívoros - o partido (the leadership), Doug Stamper, ou, sobretudo, Claire - salva este sentimento de oportunidade perdida.

Lourenço Cordeiro

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O episódioinaugural de Better Call Saul (AMC) deixou-me satisfeita; e eu, que andei durante meses a antecipar um desastre, qual oráculo da desgraça, não sei quem ou o que culpar. Talvez este encolher de ombros resignado seja o fruto da feliz combinação de vários fatores: as minhas baixas expectativas; a emoção de rever Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks) e, claro, o próprio Saul Goodman/Jimmy McGill (Bob Odenkirk), mais a viagem ao seu presente monocromático, óculos iguais aos do meu pai circa 1987 e um fantástico pornstache; a (aparente) ausência de incongruências no casting - ou Gus: O Chileno Que Não Sabia Falar Espanhol. Uma série de pormenores que não me irritaram e um final de episódio a prometer fita adesiva e dunas. Fixe - por enquanto. Eu estarei aqui, a aguardar ansiosamente a escorregadela de Gilligan e amigos. É que estou mesmo convencida de que o bate-cu se resume a uma questão de tempo.

Inês Costa

Borgen, o império da assertividade

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Atrasadinho como sempre, acabei agora de ver a 1ª temporada de Borgen. A palavra que melhor descreve o estado de espírito com que fiquei é a tal maldita com que Camões encerrou Os Lusíadas: inveja. Não da organização dinamarquesa, ou das casas elegantes e confortáveis onde se pode andar descalço o ano inteiro, ou da beleza da chefe de governo (desculpe-me, Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo), mas da presença avassaladora da assertividade em todas as facetas do quotidiano. Claro que nunca sei se as séries reflectem a realidade cultural dos países onde são filmadas ou apenas os desejos de quem está a filmar. No entanto, é muito mais avisado da minha parte apostar na primeira hipótese, uma vez que a segunda não me proporcionaria assunto sobre o qual escrever.

Portugal é, de todos os países onde vivi, quer no reino do real quer no reino da ficção, aquele em que a assertividade é mais difícil de encontrar. É verdade que no reino do real nunca vivi noutro lado, mas no reino da ficção já estive por várias vezes emigrado. Os portugueses, em detrimento da postura assertiva, preferem a postura passiva, a postura agressiva, ou, na maioria dos casos, a postura passivo-agressiva (por esta ordem, da passividade à agressividade, sem passar por nenhum estado intermédio). Na minha totalmente infundada análise, este é o motivo pelo qual temos um dos maiores níveis de consumo de ansiolíticos em todo o mundo. A passividade conduz-nos normalmente a uma refeição completa: adiamos as tomadas de decisão (aperitivo); respondemos “sim” a solicitações às quais nos apetece responder “não” (prato principal); digerimos um grande sapo (sobremesa). Nesta situação, a benzodiazepina acaba por se tornar obrigatória no processo de digestão. Da outra postura, a agressiva, que nos leva a falar e a agir sem reflexão prévia, retiramos quase sempre meia-dose de taquicardia imediata e uma boa dose de arrependimento a médio-prazo, sendo o mergulho no Xanax uma questão de tempo. Quem se alimenta de emoções e de impulsos, acaba por perfumar a retrete com o aroma da culpa e do remorso. Mas isso não acontece nas casas de banho dinamarquesas de Borgen. Nessas, onde se sentam os belos rabos da P.M. Birgitte Nyborg e da jornalista Katrine Fønsmark, reina o doce aroma da assertividade, um cocktail formado por doses bem equilibradas de racionalidade, auto-estima, abertura, confiança e frontalidade. Não são, como no conhecido piropo dos trolhas, bombons. Mas em relação às matérias fecais portuguesas, até parecem.


Aníbal Éter

Agora Escolha

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A primeira versão (e a bem dizer a única memorável) do programa que dá título a esta borra de texto durou 8 anos sempre ali a incentivar a nossa capacidade de escolha (a mim não, que eu gostava era dos desenhos animados), pela mão da Vera Roquette (googlei e descobri que tem-se dedicado à escrita de livros infantis). A verdade é que este programa (e outros, muitos deles do Herman) fazem-nos logo navegar em memórias boas, ligadas a este aparelhinho que muitos de nós ainda começámos a ver a preto e branco. Como não me consigo lembrar sequer do jantei ontem, não sou daquelas pessoas que saltam com uma citação do Herman, os desenhos animados que tanto gostava no Agora Escolha, nem sequer dos programas para votação (também fui ver, e no primeiro programa, a malta escolheu um episódio do “Espaço: 1999” frente à peça “La Sylphide” da Companhia Nacional de Bailado, o que só, pelo facto de lá estar, mostra que estamos a anos luz de como se pensava a têbê naquela altura).

Mesmo sendo dessa geração que ainda guarda referências, my point é que não vemos televisão como antes. E não digo isto porque agora temos 293293 canais, porque, como todos sabemos, esses 293293 só dão cócó. Aliás, acho sempre engraçado que hoje em dia se comprem os maiores e mais espectaculares lcd/3d/imax aparelhos de sempre, quando 70 por cento (e isto é optimista) dos conteúdos que vemos por dia é num ecrã de computador ou em tablets e telefones que são grandes como o raio para fazer uma simples chamada, mas são muito pequeninos (de dimensão miopia mesmo) para lá ver um vídeo do YouTube, quanto mais episódios inteiros ou filmes. Aliás, hoje, programas são coisas que temos de instalar no computador e o que vemos passaram a ser conteúdos. E mesmo nas nossas tvs espectaculares, também consumimos muita coisa de qualidade (da forma, não do conteúdo) menos boa. Eu falo do meu exemplo. A minha tv é fininha e LCD e qualidade razoável, e é claro que me preocupei com isso tudo na hora da compra, mas o que eu queria mesmo saber é se ela tinha uma entrada USB para eu enfiar lá todas as coisas boas que surripio do outro lado do Atlântico diariamente e nem sempre o fruto do furto vem com qualidade boazinha (além disso, hello, é um USB, não há milagres). “Ah eu preciso de uma tv grandes para ver as veias da testa da Julia Roberts em Blu-Ray”. Boa. Mas eu hoje não tenho o episódio do Breaking Bad que deu ontem nos States em Blu-Ray pois não? Claro que há qualidade para todos os gostos no reino da pirataria, mas eu já me estou a perder neste palavreado técnico. E a verdade é que até acho que a minha tv é pequenina, sobretudo quando estou a ver a bola.

E vou por aqui, porque futebol é das poucas coisas que aproveitamos da oferta exagerada de canais que temos hoje em dia (aliás, eu pago para ter ainda mais estes canais de bola). Agora, porque a vida virou para aí, também usamos muito dos canais infantis, mesmo assim, a pequena criatura já pede muitas vezes o que eu fui juntando numa pasta de coisas para a pequenada que já tem vários gigas (são 19). Junte-se a estes os blocos de notícias, os programas made in Canada e EUA sobre entrepeneurs da SIC Radical e o MasterChef Australiano, e é todo o nosso consumo de tv. Às vezes, o zapping (do qual continuo adepta, por causa daquela esperança vã que aparece e desaparece em menos de um segundo em cada mudança de canal) leva-me ao Canal 180, que está muito bem feito. Mas continuo uma fiel adepta do aparelho televisão. Do meu sofá. Da conjugação dos dois. Essa coisa de ver filmes e séries online no computador (mesmo na tv, e se o router faz buum mesmo antes dos cinco minutos finais do How to Get Away With Murder?), é algo que compreendo, até aprovo, mas não quero, muito obrigada.

(nos antros de pirataria não havia Agora Escolha para roubar, mas o Tubo deu-me logo este intervalo da RTP em 1986, que é, como os outros diziam, um belo tesourinho. Especialmente, o totoloto com rochedos ao fundo e música palaciana)

Tristany

Sem título

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Keri Russell, The Americans

O feitiço do tempo

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Espero que o Cristiano Ronaldo ganhe, em Janeiro de 2016, a Bola de Ouro relativa a 2015. E desejo-o por dois motivos: ele merece ser recompensado pelo extraordinário profissionalismo e eu mereço que a televisão me faça sentir, nem que seja um dia por ano, como um personagem de um dos filmes da minha vida. Uma pessoa chega a casa ao fim da tarde, liga o aparelho em qualquer canal, e vê alguém a anunciar “Cristiano Ronaldo”. A partir daí, entra-se no conforto das grandes certezas. Sabemos que o futebolista vai baixar a cabeça e endireitar as calças, quase soletramos o discurso de agradecimento e, terminada a cerimónia, absorvemos via televisor toda a história do atleta, da infância pobre na Madeira até à vida de luxo em Madrid, passando por todas as etapas intermédias: a rua onde deu os primeiros toques, o início da carreira no Andorinha, o olheiro-mor Aurélio Pereira, o jogo contra o Manchester em Alvalade, a forma como o Real perdeu a cabeça e o amor ao dinheiro. É bom e agradável. O ser humano precisa destes momentos Bill Murray, não vá dar-se o caso de se esquecer de algum muito pormenorizado pormenor ou de confundir a sequência cronológica, imaginando uma infância milionária no Funchal e uma vida de privações na urbanização madrilena de La Finca.

É também por estes episódios que se vê a superioridade do futebol em relação a actividades menores como, por exemplo, a literatura. O facto de ser possível que Cristiano Ronaldo ganhe várias vezes seguidas a Bola de Ouro coloca-o num patamar muito superior àquele em que se encontra outro português talentoso, José Saramago, que só numa ocasião conseguiu deitar a mão ao prémio Nobel. E que bem me teria sabido ser recebido em casa uma vez por ano com um déjà vu televisivo relatando a vida do escritor, desde o nascimento na Azinhaga até à transferência para o Lanzarote, passando pelos primeiros toques nos livros dados em Lisboa, pelas entradas a pés juntos que fez a alguns companheiros de profissão no Diário de Notícias, e pela conturbada fase da sua carreira em que Sousa Lara o colocou a treinar à parte. 

Aníbal Éter

Gajas

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No início de 2012, liam-se opiniões histéricas comparando o fresquíssimo Girls (HBO) a esse velho epítome do avacalhanço feminino chamado Sex And The City (HBO); afinal, a cidade é a mesma, as mulheres são peças de série e as ideias repetem-se ciclicamente, como os crop tops. A diferença, dizia-se, estava na ausência de malas Fendi e tutus: procurava-se um retrato realista e atualizado do que é ser mulher em Nova Iorque, o que, como todos sabemos, representa o que é ser mulher em qualquer outra parte do mundo.

Felizmente, pouco tardou para que as ideias fossem devidamente arrumadas: algures na primeira temporada, vestida com uma blusa amarela cheia de flores, Hannah Horvath (Lena Dunham) deita-se de costas no chão alcatifado e diz «I’m twenty-four years old, don’t tell me what to do»;afinal, Girls era uma série sobre miúdas, não sobre mulheres. À revelação seguiram-se novas opiniões histéricas, e quem escrevia o desejo de uma geração influenciada por novas Samanthas (mesmo achando-se uma Carrie e sendo uma Miranda) apontou as maminhas da Lena Dunham como candidatas a símbolo.

Ora, ninguém elege nada a símbolo dos meus vintes sem o meu aval — especialmente maminhas. Foi para reclamar o direito a escolher as maminhas que me representavam que comecei a ver Girls, ainda a primeira temporada não terminara; e, quando terminou, Hannah sentou-se na areia a comer uma fatia de bolo e eu fiquei verdadeiramente comovida. Girls fez o que lhe pedi: espelhar os meus receios e preocupações numa novela divertida, com aquele toque americanizado, tão delicioso e irresistível. Além de me deitar no chão com frequência e reclamar que já não tenho idade para me dizerem o que fazer, também eu gosto de bolos.

Quando a novidade passou, o meu deslumbramento permaneceu; enquanto Hannah, Marnie (Allison Williams), Jessa (Jemina Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) desabrochavam para a realidade escondida atrás dos bancos de escola, eu acenava, e ria, e irritava-me com a estupidez ingénua das quatro, que não era senão a minha. Façam o seguinte exercício: experimentem ser uma jovem ocidental, estudar os privilégios e os desafios subjacentes à condição. Certamente repararão na confusão, no apelo das más decisões, numa descoberta muito pouco mágica e propícia à merda. Girls é uma série sobre miúdas que só fazem disparates, gajas egocêntricas e inconsequentes, incapazes de saber o que querem; e está tudo bem. É assim que deve ser, com o humor aguçado e deliciosamente despropositado de Dunham, e as suas maminhas sempre prontas para a festa.

Ah, as maminhas. Podem não ser as maminhas de uma geração — até porque o conceito de geração é algo estranho; as maminhas não são nada além de uma desculpa para críticas gratuitas. Tal como as maminhas, a série não define nada além de si própria. O meu gosto por ela vem de uma identificação subtil com cada uma das personagens, como se elas fossem caricaturas dos vários aspetos nos quais é difícil tornar-me uma mulher adulta. Os traços estão bem feitos, o esquema de cores foi bem escolhido. O resultado é um sorriso nos lábios. Para mim, vá. Mas não me contrariem. «I can’t be surrounded by your negativity while I’m trying to grow into a fully formed woman.»

Inês Costa

O quê: o Stringer vai ser o 007?

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Madafaka

Carlos do Carmo Carapinha

persona

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Começa hoje a ser transmitida no Canal MOV a 1ª temporada de True Detective. Já vi e aconselho. Deixo-vos aqui, no entanto, alguns excertos do Aníbal Éter Visualization Guide para esta série.

Quando se perderem no acompanhamento da história (vai acontecer, acreditem) ou quando forem assombrados em alguns momentos por uma ligeira sensação de impertinência (também vai acontecer, acreditem), lembrem-se dos ensinamentos do Minimalismo, afastem a “tralha” da vossa cabeça e empreguem toda a disponibilidade mental na fruição do essencial. E o essencial são quatro fantásticos personagens: o Detective Martin Hart (interpretado por Woody Harrelson); o Detective Rustin Cohle, colheita de 1995 (dizem que é o Matthew McConaughey); o Detective Rustin Cohle, colheita de 2012 (também dizem que é o Matthew McConaughey, mas julgo que os proponentes dessa teoria devem decidir se o actor interpreta o Rust´95 ou o Rust´12, pois não é minimamente credível que interprete os dois); e, por fim, personagem tantas vezes esquecida pela crítica mas que se reveste de suprema importância, a paisagem do Louisiana.

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Respondendo desde já ao espírito de contradição que habita as vossas entranhas, reafirmo que a paisagem na série True Detective não serve para enquadrar a investigação e os investigadores, mas sim para interagir e dialogar com eles. Se estamos, portanto, a falar de um elemento que tem vida própria e, devido à baixa altitude e à omnipresença da água, morte própria (o mar, os rios e os lagos apropriaram-se de 5% da terra firme no último século e deverão conquistar o resto antes de Portugal conseguir equilibrar as contas públicas), só podemos estar perante uma real, concreta e subjectiva persona.

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Aníbal Éter

Fatos

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Considerações sobre a qualidade da série aparte, o Suits é uma série que satisfaz quase tão plenamente como uma linhazinha de coca. Episódios bem compostinhos, quase de uma hora cada um, cheios de tensão, fatos italianos (suits), lawsuits, speed, resoluções agradáveis, estratagemas legais, poder, sexo, ai ca bom, quero mais, já acabou, vou ver outro.

Fazia falta uma Causa Justa com uns buddys que não fossem tão palermas como o Franklin e Bash, ou tão “comédia românitca” como a Ally Macbeal. No fundo o que quero dizer é que esta é a série de advogados que eu gostava de ter visto quando estudava direito. Ao querer mostrar o mundo dos advogados senior e os seus protegidos numa empresa, todos recrutados da universidade de harvard, podia pensar-se que Suits mostra um nicho do mercado de trabalho, mas na verdade acaba por retratar as dinâmicas de um escritório com uma precisão entusiasmante. Não nos interessa que nenhuma das personagens tenha vida própria (para além da carreira), ou que as histórias de interesse romântico sejam quase inexistentes (graças a deus). O que interessa em Suits é vencer, perdendo algum tempo (pouco) no caminho com questões pequenas como a ética e a compaixão. 

Razões práticas para gostar da série? Um elenco de lavar a vista. E para quem nunca tenha visto um episódio, como eu, fique satisfeito porque há 5 seasons para papar.

Maria João Simal

Das séries falhadas de 2014

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Podia fazer disto uma bonita série de posts, mas acho que me vou ficar pelo que se segue apenas. Chamar série falhada ao “Leftlovers”, é claro que é um tique snobe de quem consumiu com afinco as primeiras temporadas do Lost, todo o Wire, o Breaking Bad e ainda se comove com alguns epis dos inícios do Mad Men. Voltemos ao “Leftovers”, que confesso não fazer ideia se dá ou deu na TV portuguesa. Aquilo já acabou há uns mesitos nos EUA, entre mixed reviews, e com a promessa de uma nova temporada que, como pessoa que leu o livro do Tom Perrotta, deixa no ar alguma curiosidade.

Podia entrar naquele exercício de comparação entre o livro e a série, não vou. O argumento é escrito pelo Perrotta himself e ficou claro desde o início que o senhor quer fazer daquilo um objecto isolado do livro. Contam-se pequenos contos em cada episódio, inspirados livremente no romance. Os temas maiores, o luto, a perda, a solidão, o desapontamento, estão lá todos, mas com uma muito maior carga de absurdo. Curiosamente, fora o afastamento estético, se tivermos de apontar a grande diferença entre livro e tv, será a falta do humor no segundo. É aquela tendência da malta da tv de se levar demasiado a sério. Sobretudo a personagem do Kevin Garney (interpretada com esgares dolorosos pelo baixo ventre do Justin Theroux). No livro é um tipo mais descontraído e cínico que está um bocado perdido, na tv é um ser atormentado, um atlas da miséria e o non sense dos outros. Mas percebe-se. Coitado. A mulher e o filho deixaram-no para se juntar às piores seitas de todos os tempos (branco? cigarros? mudez? tipo estranho que tem sotaque inglês e que nunca se percebe porque é que é adorado?), a filha culpa-o por tudo e ainda por cima não arranja um raio de umas calças que não mostrem mais do que devem no seu running diário.

O Leftovers, além de um elenco muito bem amanhado, tem um tempo muito peculiar que não é muito comum na tv de hoje. Há ali espaço para ver os pormenores, as rachas na parede que tão bem servem de metáfora ao (excelente) último episódio. Também nos deixou a Carrie Coon e um dos melhores epis de tv do ano (é claro que é o que é centrado na Nora, a personagem de Carrie Coon, o 01#06). Agora (lá para o final do ano suponho) venha a segunda temporada. Com a certeza de que o existencialismo e uma data de outros ismos (incluindo o ‘eu botava uma carga de porrada tão grande naquela gente do cigarrismo’) não andam tão bem representados nos ecrãs por estes dias.

Tristany